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Do olho do furacão, Cansei de Ser Sexy fala sobre o Brasil e o novo disco
Felipe Leal
Saído de São Paulo, o Cansei de Ser Sexy começou como um projeto despretensioso e se tornou algo inacreditavelmente grande. Com pouco mais de quatro anos de história, ganhou projeção na mídia internacional e hoje integra grandes festivais dos Estados Unidos e Europa. E, apesar das saudades, a banda está com a agenda lotada e adianta que só toca no Brasil este ano no caso de uma “proposta inacreditável”, mostrando que o multiinstrumentista e produtor Adriano Cintra e suas companheiras de banda estão muito bem, obrigado.
Em entrevista por telefone, a guitarrista e baterista Luiza Sá contou os detalhes da gravação do segundo álbum da banda, Donkey, falou um pouco sobre a trajetória do CSS e aproveitou para dizer que John Lydon, ex-vocalista do lendário grupo Sex Pistols, é um “idiota”. Indo na carona do Radiohead, a banda paulistana disponibiliza gratuitamente e na íntegra seu segundo trabalho no site do selo Trama.
Como foram as gravações do novo álbum?
Quando entramos no estúdio, já tínhamos escrito todas as coisas, aí foi mais gravar mesmo. O primeiro disco foi feito no fundo da casa do Adri (Adriano Cintra) e da Carol (Carolina Parra), numa salinha, e no Donkey tivemos a oportunidade de usar o estúdio da Trama, que é incrível. Ninguém encheu nosso saco para nada, a gente fez tudo de forma organizada. Para mim, foi um aprendizado, porque usei um monte de instrumentos que nunca tinha usado – guitarra diferente, amplificadores diferentes – e tudo num processo com uma vibração boa.
Quais as principais diferenças entre o Donkey e o primeiro CD de vocês?
O primeiro disco foi feito metade no computador e metade em estúdio, foi meio feito como demo mesmo e a gente nunca esperava fazer tantas tours com ele. Nesse segundo, estivemos preocupados em ser o mais próximo possível do que somos ao vivo, do que a gente é como banda e a gente se tornou mais banda depois que começamos fazer tours. O Adriano produziu tudo e a mixagem é do Spike Stente, que já trabalhou com o Massive Attack, Madonna, Gwen Stefani e Björk.
Pelo disco, dá para ver que vocês amadureceram. Ele está mais bem produzido, as guitarras ganharam mais peso...
Passamos por muita coisa e não teve como a gente não amadurecer. Falo que esse disco é mais pessoal e mais sério que o primeiro disco, que era completamente despretensioso.
E por que a escolha do título Donkey?
Era uma piada que a gente tinha, porque uma amiga nossa que mora em Los Angeles há muito tempo tem um inglês bem engraçado e ela traduz tudo. Ela vendia umas camisetas nossas nos dias de show e, se a pessoa não comprasse, ela dizia algo como “Não vai comprar nossas camisetas? You donkey! (burro em inglês)”. Então a gente meio que se chamava de donkey. Depois começamos a pensar no nome do segundo disco e esse veio, mas não foi uma coisa que surgiu agora.
Corre um boato que a música “Rat Is Dead” é endereçada ao seu ex-empresário. É isso mesmo?
Acho que todas as músicas têm coisas baseadas na vida, mas nenhuma delas é autobiografia, então eu prefiro deixar as pessoas entenderem o que elas quiserem. Só espero que não levem tudo ao pé da letra.
E como está sendo a nova formação com o novo baterista (Jon Harper, do The Cooper Temple Clause)? Ele está como músico contratado? E fica com vocês até quando?
Até o fim do ano, pelo menos. Ele é ótimo, mas está super comprometido, por isso está como músico contratado.
Publicações internacionais alegaram que a Iracema Trevisan saiu porque queria se dedicar a aulas de moda. O que realmente aconteceu?
A Ira entrou numa escola de Moda em Paris e está por lá. Ela fez a escolha dela, ela quis sair e sempre foi muito mais segura fazendo moda do que música. A saída dela foi muito tranqüila, ela disse que sairia e que não queria drama com isso. Ela ficou conosco até o fim do Donkey.
Assim como com o primeiro disco, vocês escolheram divulgar o Donkey pela internet. Ela é fundamental para as bandas de hoje?
Acho que todas as bandas de hoje têm que ter relação com a internet e acho incrível que exista download gratuito do nosso CD para o Brasil, pelo site da Trama. É muito bom, pois muitos brasileiros não têm poder aquisitivo. Espero que todo mundo espalhe nosso CD, aí poderemos ter mais mercado no país. O último show que fizemos em São Paulo foi incrível!
Por falar nisso, alguma chance de vocês tocarem no Brasil esse ano?
Esse ano está tudo cheio (a agenda). A não ser que surja uma proposta inacreditável. Não temos uma preferência por Brasil ou exterior. É óbvio que a gente sempre vai ser brasileiro, sempre vai sentir saudades, mas a gente nunca foi feliz trabalhando no Brasil. Era frustrante trabalhar a semana inteira e tocar no fim de semana para não ganhar quase nada. No começo era legal, mas a gente morria de cansaço e começou a ficar pesado. Aqui temos uma estrutura que não tínhamos no Brasil.
As saudades são de algum lugar específico? São Paulo?
Tenho saudades de passar as férias aí, saudades da praia, do Rio, da Bahia... Gosto de São Paulo porque é de onde viemos, mas é meio caótico.
Como foi essa saída meteórica do underground brasileiro para os maiores festivais do mundo?
Aconteceu muita coisa legal desde o primeiro disco e a gente não esperava, tudo foi uma surpresa.
Inclusive resolveram os problemas com dinheiro?
Esse ano a gente está trabalhando tanto quanto no ano passado, só que tudo de forma mais organizada, tivemos um monte de problemas com dinheiro e agora as coisas são mais fáceis de lidar, inclusive com coisas difíceis, como fazer tour. Não é um sucesso enorme, a gente anda na rua normal, mas saímos de shows com 500 pessoas em Londres em 2006 para palcos com mais de cinco mil pessoas ano passado.
Sem falar que vocês estão conhecendo pessoalmente um monte de bandas...
É! É muito louco isso, uma das coisas mais loucas que existem. A gente estava vendo que todo festival que tocávamos tinha fãs do Breeders e no final conseguimos falar com eles e foi demais. Teve ocasiões em que tocamos no mesmo palco que o Sonic Youth e foi incrível. Tem um monte de gente que faz música e é amigo da gente, como o Primal Scream.
A Lovefoxxx chegou até a gravar com eles, não é?
Foi! Ela estava super tensa, mas foi ótimo.
O relacionamento com as bandas então é muito bom, pelo que você diz...
Só tivemos problema com o John Lydon (ex-Sex Pistols). Ele é um idiota. Pode escrever aí.
Como vocês vêem a cena brasileira? Dá pra acompanhar?
Às vezes eu encontro o Rodrigo Amarante. A gente é amigo e eu sou muito fã dele. Eu era fã dos Los Hermanos e às vezes a gente se encontra. Ele está trabalhando com o Devendra Banhart e acho que vai fazer umas coisas legais por aí. Ouvi algumas músicas no iPod dele e parece bom. Não é um rockão, mas não é samba.
E fora o Amarante?
Eu não tenho ouvido nada ultimamente daí. Ouvia rap mesmo, B. Negão, Rappin Hood, e agora não consigo pensar em nada que não seja velho tipo Caetano, Mutantes, Rita Lee. A gente ama muito ela, a gente a cita em todas as entrevistas. Ela é muito mais legal que os outros.
E quanto às bandas gringas?
Aqui fora dá pra acompanhar e conhecer coisas como o Black Kids, que é uma banda que veio atrás da gente e acabou de lançar um disco ótimo (Party Traumatic). Gogol Bordello eu adoro também, cheguei a ver os filmes que ele atuou!
Algum recado para os fãs brasileiros, Luiza?
Espero que as pessoas baixem o disco. E que saia bastante na mídia para que as pessoas façam pressão para a gente poder tocar aí, porque a gente quer tocar aí.
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